Cerveja sem álcool ganha espaço e muda hábitos de consumo no Brasil
A cerveja sem álcool cresce no país, impulsionada por novas gerações e busca por equilíbrio no consumo; a tendência deve ser vista como novas oportunidades de mercado
A cerveja sem álcool deixou de ser uma alternativa secundária e se consolidou como uma das principais tendências do mercado cervejeiro.
Até porque, nos últimos anos, o crescimento expressivo do setor reflete uma mudança clara no comportamento do consumidor, cada vez mais atento à saúde, ao equilíbrio e à experiência de consumo.
Dados do Anuário da Cerveja, do Ministério da Agricultura, apontam que o volume de produção de cervejas sem álcool cresceu 536,9% entre 2023 e 2024.
A expectativa é que esse movimento continue em 2026, impulsionado principalmente por gerações mais jovens, que têm reduzido o consumo de álcool, e por millenials, que buscam um estilo de vida mais leve.
Se grandes marcas como Heineken e Ambev já investem nesse segmento, as cervejarias artesanais começam a se destacar ao oferecer rótulos diferenciados e experiências mais complexas.
É o caso da Luci, cervejaria brasileira dedicada exclusivamente às versões sem álcool. Barbara Mortl, sócia e mestre cervejeira, explica que a proposta é entregar autenticidade e regionalismo.
“A experiência de optar pela cerveja sem álcool artesanal tem o mesmo princípio do que optar por qualquer cerveja artesanal: o consumidor busca pela experiência de um produto mais complexo, autêntico e com um regionalismo mais presente”, conta.

Como está o mercado das cervejas sem álcool?
A crescente opção das cervejas sem álcool vem sendo vista como algo já consolidado. A Heineken já trabalha com versões sem álcool desde 2019 e recentemente anunciou uma nova versão dela com um produto zero álcool, açúcar e calorias.
O novo rótulo ainda está em testes em países como Estados Unidos e Polônia, mas logo deve chegar no Brasil. Ou seja, o mercado do bem-estar tem sido alvo das escolhas dos consumidores.
Barbara analisa que essa não é só mais uma fase e sim algo que veio para ficar, inclusive nas novas gerações.
“A geração Z é a que bebe menos, é a geração que trocou a noite pelo dia, com foco na saúde e na performance de maneira geral. Apesar de não ser o grupo que mais compra a cerveja sem álcool, é o grupo formador de opinião e que futuramente serão os principais compradores”, ressalta Bárbara.
A empresária vê esse comportamento dentro da Luci. “Já os millennials são o nosso maior público aqui na Luci, aquele tem o poder de compra com um perfil de consumo diferente, muitos consomem junto com a bebida alcoólica, intercalam para reduzir o dano do álcool e sempre estão em busca de novas experiências”, compartilha.
A Luci
A história da Luci veio um pouco neste contexto. Danniel Barbosa Rodrigues, fundador da Luci, estava se preparando para uma maratona e com isso resolveu reduzir o álcool.
Durante uma prova em 2022, em Berlim, ele teve contato com cervejas sem álcool que realmente tinham sabor e inclusive eram servidas durante o percurso.
Quando retornou ao Brasil quis trazer isso para cá. Barbara então foi a chave que faltava, ela desenvolveu as receitas, trazendo a brasilidade e valorizando ingredientes como frutas e lúpulo nacional.

Ou seja, a zero álcool ultrapassa as barreiras das grandes cervejarias e chega para quebrar o estereótipo do saber “sem graça”.
“A qualidade da cerveja sem álcool está aumentando absurdamente, as artesanais se reinventam a cada dia e melhoram o processo cada vez mais. Ingredientes locais têm sido a grande aposta para criar novos caminhos”, conta.
Quais são as oportunidades para os empreendedores?
Com essa movimentação de mercado, é inegável que os empreendedores do meio cervejeiro precisam ficar atentos.
“Se o empreendimento tem foco na gastronomia, na experiência ou na cerveja, trabalhar com opções artesanais é muito importante. As pessoas querem consumir cerveja de qualidade e super saborosas”, diz Barbara.
A inclusão desses rótulos nos pontos de venda vai englobar mais pessoas e ampliar as possibilidades para o seu próprio público.
“A opção da cerveja sem álcool vem justamente para agregar mais alternativas de consumo e por consequência, maior leque de consumidores. As pessoas estão bebendo cada vez menos álcool, mas isso não quer dizer que elas não queiram socializar e pertencer ao mesmo grupo. A cerveja sem álcool agrega acima de tudo”, analisa.
Nesse sentido, é importante pensar na inclusão da cerveja sem álcool como estratégia de venda ou até explorar novos canais.
“É comum, fora do Brasil, que bares funcionem como ponto de partida e chegada de corridas de rua, provas de ciclismo e eventos semelhantes. Esse tipo de iniciativa atrai um público diferente e uma nova dinâmica de consumo”, exemplificou.
No cenário atual, a expansão da cerveja sem álcool acompanha uma transformação mais ampla no consumo de bebidas, que inclui também versões não alcoólicas de vinhos e drinks tradicionais.
Cerveja sem álcool e o futuro
A tendência indica uma mudança de longo prazo, com o setor se adaptando a novas demandas e hábitos. Tudo isso também amplia o espaço dessas opções dentro da cultura cervejeira e principalmente na artesanal, que passou nos últimos anos por uma estabilização relevante de mercado.
“Acho que quanto mais opções de escolha, mais curioso o consumidor vai ficando. É necessário informar sobre as opções, da qualidade sensorial, das harmonizações e de todas as possibilidades de consumo da cerveja sem álcool. Quanto mais informações temos, mais adeptos estamos a essas novas experiências”, analisa.
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